Hipermercado

É inútil a filosofia, como se sabe.

Assim como a arte – coisa que também se sabe.

Um filósofo artista ou um artista filósofo ou ainda um artista e filósofo é um duplo inútil.

E Marx sentenciou que a mercadoria é, de um lado, suor e engenho; de outro, utilidade.

Sem um de seus aspectos fundamentais, a mercadoria não se constitui como tal.

Por isso, filosofia e arte não vendem ou vendem pouco.

Sua inviabilidade comercial, no entanto, é curiosíssima, pois filosofia e arte são, em essência, o comércio mais extremo: a filosofia, como frenética feira das ideias; a arte, como perene intercurso (carnal?) de todas as formas.

Publicado em:  on Setembro 15, 2009 at 8:47 am Comentários (1)

Santé

Filosofia e terapia se complementam e, até certo ponto, se confundem.

A filosofia é avessa a fórmulas.

A terapia, à especulação.

A filosofia é teórica e abstrata.

A terapia, prática e concreta.

A filosofia é universal, podendo porém ser transposta, em certa medida, para os casos individuais.

A terapia é individual, embora disponha de arrazoado universal, que não pode, porém, ser  tomado ao pé da letra.

Vistas assim talvez sejam  meramente opostas, portanto excludentes, em vez de complementares.

Possivelmente porque, para que se complementem, necessitem de um terceiro elemento, que atue como mediador e fator de liga.

Esse terceiro elemento é a disciplina.

Na filosofia, a disciplina atua como rigor do pensamento.

Na terapia, como rigor do tratamento.

Filosofia e terapia se encontram, assim, na saúde – seja do pensamento, seja do espírito.

Publicado em:  on Setembro 14, 2009 at 12:45 pm Comentários (4)

Volume máximo

O pensamento guarda equidistância da teoria e do fato, de modo que o fato é revisto pela teoria, a teoria pelo fato.

Esse jogo permite que, lentamente, o pensamento caminhe para a obviedade, quando todos poderão dizer: eis a teoria; eis o fato.

Esse é o caminho natural (e igualmente artificial), o caminho mais desejável.

Desconfie, portanto, e faça a tempo os ajustes necessários, sempre que um enunciado revelar pouco apego à teoria ou pouco apego aos fatos.

Publicado em:  on Setembro 13, 2009 at 3:28 am Comentários (2)

Um passado chamado Drummond

A liberdade pode ser compreendida como a arte de vencer o passado.

Assim, a diferença entre o prisioneiro e a pessoa livre é que o prisioneiro se enreda no passado, enquanto a pessoa livre retifica o presente.

O prisioneiro é um comentarista do crepúsculo, enquanto a pessoa livre é uma precursora de auroras.

O prisioneiro diz: o passado me constrange, enquanto a pessoa livre desdiz o presente.

O prisioneiro é sempre localizável, enquanto a afirmação sobre o lugar da pessoa livre é sempre uma mentira.

O símbolo do prisioneiro é um freio de mão; o da pessoa livre, uma banguela e um pé soberano diante do pedal.

Graça suprema: no dia de hoje não há uma pedra no meio do caminho, nem como obstáculo, nem como fenômeno.

Publicado em:  on Setembro 11, 2009 at 7:16 pm Comentários (5)

Sinal verde para crises

Greenspan disse que as crises econômicas são fruto da natureza humana.

Os seres humanos seriam guiados pela ambição individual e a imprudência, e a especulação e o risco sem peias viriam justamente daí.

Ocorre, Greenspan, que nem todas as culturas eram guiadas pela ambição individual e a imprudência.

Logo, não se trata meramente de natureza.

Mas há algo sim de natureza envolvido na questão.

A natureza humana é excesso, exuberância.

As culturas em que esse excesso e exuberância não se manifestaram como ambição individual e imprudência eram regidas pelo sagrado.

O excesso e a exuberância, quando regidos pelo sagrado, se expressavam como doação extrema – dos seres humanos aos deuses, dos deuses aos seres humanos.

Findo esse intercurso, o excesso e a exuberância perderam sua destinação geral.

Agora, cada um tem, em certa medida, que inventar uma destinação específica para seu próprio excesso e exuberância.

Cada um tem, mais que isso, que inventar seu próprio destino.

Um destino se faz com ambição.

E ambições individuais, compostas à base de elevado grau de inventividade, discrepam fortemente entre si.

E não se realizam ambições sem algum risco.

E alguns têm mais ambições que outros.

E alguns perseguem suas ambições com maior grau de risco que outros.

E não há Deus, pelo menos não com suficiente credibilidade, para acautelar todos os demandantes.

Logo…

Publicado em:  on Setembro 10, 2009 at 12:34 pm Deixe um comentário

Mundo da linguagem

Dizem que a linguagem não é capaz de reproduzir o mundo.
Mas linguagem é mundo.
Como mundo que é, seu escopo deve ser perseverar como mundo.
Mas cada aspecto do mundo o é à sua moda.
Linguagem como mundo, portanto, não aspira a ser qualquer outro aspecto do mundo, que não ela mesma.
Como aspecto distinto, ela não é apenas mais mundo, mas também e sobretudo mundo qualitativamente refeito.
Assim, a linguagem não ser capaz de reproduzir o mundo não é fracasso e sim sucesso.
O que ela, como tudo, sempre reproduz é a capacidade mais intrínseca do mundo, a de sempre se recriar, como mundo novo, quer renovado, quer inovado.

Publicado em:  on Setembro 7, 2009 at 11:15 pm Deixe um comentário

Partidas dobradas

Por que os engarrafamentos, o câncer, o infarto, o aquecimento global, a solidão?

Não faz sentido, é o que a maioria diz.

E por que a maioria simplesmente não abre mão dos engarrafamentos, do câncer, do infarto, do aquecimento global, da solidão?

Irracionalidade?

Certamente, não pode ser descartada como fator.

Certamente, porém, não pode ser assumida como a totalidade dos fatores.

Há, certamente, algo mais.

Ao que parece, há compensações robustas ao engarrafamentos, o câncer, o infarto, o aquecimento global, a solidão.

Todas essas compensações talvez possam ser resumidas numa expressão: inventividade individual.

Depois que o sagrado recuou para o segundo plano e reemergiu sob  formas substitutivas, como o fervor, de menor intensidade, pelo trabalho, pelo Estado, pelo dinheiro, pelo esporte, pelo sexo etc., boa parte das energias humanas ficaram sem uso e são, hoje, canalizadas para a inventividade individual.

Inventividade individual generalizada gera anarquia, de onde, em última instância, provêm os engarrafamentos, o câncer, o infarto, o aquecimento global, a solidão.

Viver com engarrafamentos, câncer, infarto, aquecimento global, solidão etc. é ruim, mas é bom.

Publicado em:  on Setembro 3, 2009 at 12:45 pm Comentários (2)

Degradado limbo

Por que, na maioria dos credos, senão em todos, há um deus supremo ou ente assemelhado, que se afasta do contato humano e ali permanece como abrigo de última instância?

Para o cultivo da humildade humana.

Os deuses que não se recolhem estão sujeitos à fúria do Sparagmós; ou seja, no intercurso entre inferno, terra e céu, o corpo dos deuses próximos poderá ser, mais uma vez, estraçalhado para que haja vida nova.

Um deus recolhido diz: – Sejam humildes, pessoas, nem tudo está a seu alcance.

Isso, que talvez seja muito primitivo, talvez seja também o prenúncio do refinamento civilizatório, do decoro, da modéstia – sempre necessária em um certo grau.

Se é assim, um povo sem recato ou senso de medida se encontra numa absurda distância  simultânea do sagrado e do profano, da comunidade arcaica e da sociedade moderna.

Um povo assim não está em lugar algum, não vai a lugar algum.

Publicado em:  on Setembro 2, 2009 at 11:06 am Comentários (3)

Prisão e portal

O pensamento do século XIX descobriu a história e a sociedade e encobriu os seres humanos.

Quer encontrar gente, gente de verdade, as pessoas como elas são?

Rasgue o véu do histórico e do social.

Em que ponto do tecido histórico-social deve ser feito o rasgo?

O próprio tecido indica.

A cultura, confluência do histórico-social, é um mapa que nos mostra por onde podemos romper seus limites.

Como porta de saída, o mapa cultural das comunidades arcaicas apontava o mito e o rito; o das sociedades modernas, a heterogeneidade e a inovação.

Ao sobrevalorizar o histórico e o social, ao defini-los como nosso horizonte máximo, o pensamento do século XIX, predominante até hoje, acabou por renegar o histórico e o social, porque não percebeu o que mais os distingue: a ambiguidade de uma clausura que liberta.

Publicado em:  on Setembro 1, 2009 at 2:32 pm Deixe um comentário

Pseudopositivo

No século XIX, Comte decretou o fim da filosofia e sua superação pelas ciências sociais.

Importariam supostamente, dali em diante, os fatos positivos e não as especulações.

Mas a filosofia sobreviveu, ainda mais forte.

Porque a especulação não é contra a empiria; a especulação ultrapassa a empiria sem rejeitá-la.

Hoje a filosofia parece dizer: – Mais empiria! Como uma imensa fábrica que devora quantidades sempre maiores de insumos.

No século XIX, houve outro decreto de morte, o dos socialistas contra o capitalismo.

Mas o capitalismo sobreviveu e ainda mais forte.

Porque o capitalismo não é necessariamente contra o bem-estar social, fundamento maior do pleito socialista.

Um bom capitalismo pode dizer: – Mais bem-estar social! Como quem precisa não de parasitas alimentados por um megaestado ultraprovedor, mas como uma máquina da competição e da criatividade, que precisa de pessoas com mais liberdade formal e substantiva para criar e recriar-se.

Os decretos de morte talvez não passem de um sintoma de contendores previamente fracassados que, ao constatarem a superioridade incontornável de seus oponentes, desistem da luta de um modo curioso, a saber, proclamando-se vencedores.

Não são, certamente, menos perdedores por isso.

Publicado em:  on at 2:02 am Deixe um comentário